domingo, 11 de janeiro de 2015

Virtualização das relações sociais: considerações sobre autenticidade e transparência na rede



Virtualização das relações sociais: considerações sobre autenticidade e transparência na rede

Bacurau, Leideana

Neste encontro fomos provocados a abordar a temática da virtualização das relações sociais, enfocando a questão da autenticidade e transparência na rede*. Considerei um assunto pertinente a este blog que, pela sua natureza, está aberto a discussões relacionadas aos comportamentos das pessoas e às distâncias existentes (ou inexistentes), entendidas nesta sociedade em rede.

Permitam-me, inicialmente, fazer referência a uma leitura sobre esta temática obtida no blog da colega Ana Toscana, pinçando a parte em que ela resgata o conceito de virtualização apresentado por Lévy (1997, p. 148), quando ele afirma que “não se trata de modo algum de um mundo falso ou imaginário. Ao contrário, a virtualização é a dinâmica mesma do mundo comum, é aquilo através do qual compartilhamos uma realidade. Longe de circunscrever o reino da mentira, o virtual é precisamente o modo de existência de que surgem tanto a verdade como a mentira”.

Ora, se historicamente as sociedades em suas relações não virtuais criaram: o amor e o ódio; a verdade e a mentira; o original e a cópia; o fiel e o infiel; o honesto e o desonesto dentre tantos outros contrários que caracterizam esta singularidade humana é óbvio que no mundo virtual (humano, produzido pelas tecnologias) a autenticidade e a transparência não se encontram garantidas nas informações e relações constantes das redes.

Reputo dois aspectos como importantes neste contexto de autenticidade e transparência. O primeiro se refere a quão nova é a virtualização das relações sociais. Neste contexto, o novo expressa desacomodações, desconfortos, equívocos, exageros... Depois, certamente, pelo próprio movimento social e o desenvolvimento de novas competências humanas, pessoais, profissionais, corporativas surgirão o aprimoramento e as novas adaptações.

Um pequeno flashback pode confirmar quão jovem é este processo de cibercultura. O fenômeno da Internet tem sua origem pelos anos de 1960 nos Estados Unidos, restrito a fins militares (rede denominada ARPANET); em 1972, integra 4 instituições entre universidades e centros de pesquisas americanos (primeira transmissão de mensagem de texto); na década de 1980 estende-se a pesquisas acadêmicas (novas redes, surgimento do e-mail);  na década de 1990, difunde-se no mundo com o World, os provedores - um formato mais amigável toma o lugar daquela tela preta de letras verdes.

Do ponto de vista histórico, só muito recentemente a Internet se difunde de forma exponencial. Estamos diante, portanto, de um processo novo com muitos espaços de aprimoramento. Todavia, por ser um fenômeno social com dimensões imensas no que se refere à quantidade de informações, usuários e cifras que movimenta, seus problemas se apresentam de forma cada vez mais frequente - e, consequentemente, clama mais rapidamente por regulamentações, as quais surgem em várias nações, conforme ocorreu com o marco regulatório da Internet no Brasil, publicado em 2014.

O segundo destaque que mobiliza minhas considerações, se refere à questão da educação das pessoas, das organizações e da sociedade em relação a esta matéria. Como vimos, a virtualização das relações sociais é um processo novo, a Internet é um terreno carente de regulamentação, ela consiste num dos cenários desta sociedade e numa ferramenta indispensável no mundo de hoje. É inquestionável o benefício oriundo das pesquisas nas diversas áreas do conhecimento científico que a Internet vem proporcionando; a socialização do conhecimento em proporções jamais vistas na história da humanidade dentre outras benesses das novas tecnologias da informação e comunicação. No entanto, observa-se que a Internet é um terreno também possível para aventureiros, para a ausência de autenticidade, de transparência, de exageros.

E por falar em exageros, afinal isto também aconteceu quando do surgimento das televisões (que viraram babás das crianças); dos telefones (que foram instrumentos de trotes, sequestros, dispersão dos adolescentes que deixavam de estudar para tagarelar ao telefone); do setor alimentício (que criou uma epidemia de crianças e adultos com sobrepeso e doenças provocadas pela abundante e má alimentação); do desenvolvimento econômico desenfreado (que provocou danos à natureza). Todavia, o usufruto e os conflitos vivenciados nestes relacionamentos sociais, naturalmente demandaram e geraram alternativas de soluções para os problemas, bem como aprimoraram os processos acima listados. Assim ocorrerá (considero) com as relações sociais virtualizadas e com a autenticidade e a transparência na rede, cujos aprimoramentos passarão, necessariamente, por processos legais e educativos.

Como vimos no post anterior publicado neste espaço, é-nos inerente a responsabilidade quanto às escolhas. Há uma competência necessária ao cidadão contemporâneo, requerida pelas diversas dimensões de nossa vida, quer nos aspectos profissionais ou pessoais. Trata-se da capacidade de pesquisar, avaliar, interpretar, criticar e partilhar as informações abundantemente disponíveis na rede. Aos educadores, sobremaneira, torna-se fundamental construir habilidades cognitivas e usar meios adequados para bem desenvolver suas escolhas.

Lévy (Cibercultura, 1999) ressalta que nem tudo que está nas redes, no ciberespaço é bom, assim como nem toda obra artística é de qualidade boa, mas a responsabilidade pelas escolhas pode nos permitir assumir uma postura aberta quanto às novidades - claro que reconhecendo o que há de positivo para a vida social e cultural das pessoas como consequência do avanço das novas tecnologias e das novas redes de comunicação.

Ao longo de nossa formação continuada, incansável percurso em busca de aprender a aprender, ressalto a importância de sermos capazes de proceder escolhas diante do dilúvio de informações que se encontra na rede; exercitarmos a competência de filtrar, selecionar, dar significado ao que tem na rede, hierarquizando em convergência com as demandas pessoais, grupais ou corporativas.

Aliás, segundo Borges (2002), a informação não é a substância, mas sim o ato cognitivo, a interação entre o sujeito e o objeto da informação é o fundamental. Tal entendimento qualifica ainda mais o necessário desenvolvimento da capacidade de pesquisa, de escolha, de crítica e de autonomia pelos utilizadores das redes. Para Gustavo Morale, CEO e co-fundador da Hotwords**,  a transparência é aspecto de total relevância; para ele no mundo corporativo da Internet quem valida, “ quem diz se é bom e se é ruim é quem vê e compartilha”.

Enfim, há o contínuo e potencial desenvolvimento de ferramentas capazes de dificultar perfis falsos, na tentativa de garantir autenticidade e transparência de documentos, informações e relações, que serão mais largamente socializadas e utilizadas pelo amadurecimento das relações sociais virtualizadas e pelo aumento do grau de exigência dos utilizadores. Considero, principalmente, que a falta de autenticidade e de transparência nas relações sociais virtualizadas tendem a rarear na medida em que se ampliam os processos de educação na família, de educações formais (nos diversos níveis de ensino) e não formais, contemplando o uso das novas TICs e o desenvolvimento de competências para uma atitude crítica e de autonomia frente aos efeitos do desenvolvimento tecnológico e da sociedade em rede.


*Universidade Aberta de Portugal – Uab, Mestrado em Pedagogia do e-Learning, Mpel, 2014. Unidade Curricular Educação e Sociedade em Rede (Autenticidade&Transparência na Rede – Atividade4).
** Hotwords: empresa bem sucedida do ramo da internet, com foco de atuação na personalização e contextualização de anúncios.

Bibliografia:
Brasil (2014). Lei Nº 12.965, de 23 de Abril de 2014. Estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil. Disponível em <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2014/lei/l12965.htm> Acessado em 07 de jan. 2015. 
Lévy, P (1999). Cibercultura. Tradução: Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Edições 34;
MARINELI, Marcelo Romão. Falsos perfis nas redes sociais virtuais: direito à identidade. Jus Navigandi, Teresina, ano 18, n. 3700, 18 ago. 2013. Disponível em: <http://jus.com.br/artigos/25141>. Acesso em: 10 jan. 2015.
Video “O impacto da Internet nas relações sociais” https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=N_GpX6sc8xo

https://nathalieferret.wordpress.com/2013/01/13/conclusao-sintese-de-debate-a-autenticidade-e-transparencia-na-rede/ acessado em 8-1-2015.

domingo, 30 de novembro de 2014

Pinceladas de Cibercultura



Ler sempre é muito bom, mas algumas obras lhe provocam significativas reflexões. Em Cibercultura (Lévy, 1999) três aspectos me chamam a atenção e compartilho-os com vocês. São minhas abstrações – espero que lhes sejam úteis e apreciem.
Inicialmente, é pertinente destacar que a obra referenciada objetiva pensar a cibercultura. Neste contexto, o autor opta por uma abordagem otimista, na qual reconhece que a Internet não resolverá todos os problemas sociais e culturais da humanidade, mas considera fundamental a compreensão de que o crescimento do ciberespaço decorre de um movimento internacional de jovens desejosos em romper com as mídias tradicionais indo ao encontro, coletivamente, de formas diferentes de se comunicarem, bem como o entendimento de que a sociedade estar vivenciando um novo espaço de comunicação, cabendo-nos identificar as suas potencialidades para a melhoria das dimensões sociais, políticas econômicas e humanas.
Na leitura do texto, minhas reflexões iniciais destacam:
a) a dificuldade por parte da sociedade ou de segmentos da sociedade em acolher novos paradigmas, conforme se observa em relação à cibercultura. Historicamente, fatos idênticos ocorreram quando do surgimento do Rock, nos anos 50 e 60; da música pop dos anos 70 e; da sétima arte – o cinema. Esses fenômenos, foram alvos de fortes preconceitos (posteriormente, superados) e se expandiram para além muros; juntos ou isoladamente, não se constituíram panaceia do mundo, mas ofereceram grandes contribuições sociais, reconhecidas, bastante reconhecidas na atualidade. A industrialização pela qual estas expressões sociais e artísticas passaram não lhes tirou méritos, benefícios e possibilidades. Certamente, assim está acontecendo com o ciberespaço e a cibercultura.
b) o segundo ponto de contemplação refere-se a nossa responsabilidade quanto às escolhas. O autor ressalta que nem tudo que está nas redes, no ciberespaço é bom, assim como nem todo filme ou toda música é boa. A responsabilidade pelas escolhas pode nos permitir assumir uma postura aberta quanto às novidades, compreende-las, reconhecer as mudanças qualitativas que podem advir e o ambiente inédito resultante da extensão das novas redes de comunicação para a vida social e cultural, bem como o uso das novas tecnologias numa perspectiva humanista.
Ainda neste contexto, cumpre-nos o papel de dar sentido ao que se encontra na rede, um verdadeiro “dilúvio” de informações que não pode ser contido, disponibilizado por meio de redes sociais como facebook e linkedin (ferramentas de interação social), Google e YouTube (ferramenta de pesquisa) etc. Portanto, é necessário que desenvolvamos a competência de filtrar, selecionar, dar significado ao que tem na rede, hierarquizando em convergência com as demandas pessoais, grupais ou corporativas.
c) a terceira reflexão que tomo, refere-se ao inexorável aspecto comercial em larga proporção que tomou o ciberespaço. O autor declara que a exploração econômica da Internet ou o fato de nem todos terem acesso a ela, não justifica posicionamento de condenação a cibercultura. Constata que há cada vez mais serviços pagos, assim como cresce significativamente os serviços gratuitos de todas as partes, sob diferentes formatos e em diversas áreas. Observa-se que o comércio, assim como a dinâmica libertária e comunitária que caracterizam o crescimento da internet, são complementares e impulsionam o seu desenvolvimento. Compreende a seriedade do aspecto da exclusão social presente neste ciberespaço, todavia diz que não deve ser motivo para o não reconhecimento das implicações culturais da cibercultura em suas diversas dimensões. Alerta que não são os pobres que se opõem a Internet e sim aqueles que têm os seus privilégios ameaçados pelos novos tipos de comunicação.

Sabe-se que nas últimas décadas, a cibercultura caracteriza as relações acadêmicas, profissionais e pessoais. Diversas ferramentas favorecem a comunicação entre as pessoas, grupos e organizações, formais ou informais. No texto em estudo, o autor cita tecnologias que emergem e que caracterizam as formas crescentes de comunicação digital, entre as quais estão destacadas a seguir:
 1- O Correio Eletrônico (e-mail) amplamente usado para a troca de mensagens digitais on-line entre pessoas ou corporações; nas corporações, as mensagens podem inclusive ser previamente programadas e transmitidas por softwares específicos, o que é muito usado no setor comercial. O Correio Eletrônico mudou radicalmente a forma de comunicação nas organizações, imprimindo mais rapidez e transparência; reduzindo a circulação de papéis e; ampliando a capacidade de comunicação, envio e recepção de arquivos por meio de Internet. De forma simplificada, por não mais demandar grandes equipamentos, o Correio Eletrônico hoje está bastante presente e acessível por meio dos aparelhos eletrônicos móveis. Ao longo do texto o autor detalha esta modalidade de comunicação digital, o que se justifica considerando que o lançamento da obra ocorreu na década de noventa.
  2- Na sequência o autor destaca as Conferências Eletrônicas, ferramenta que possibilita a determinados grupos de pessoas debaterem assuntos de interesse, para isto requerendo disponibilização de Internet. Nesta modalidade de comunicação, os participantes podem se colocar como ouvintes ou estabelecerem comunicação entre si. Igualmente, as Conferências Eletrônicas podem ser usadas por organizações para tratar sobre temas diversos, reunindo on-line gestores ou funcionários que se encontrem em lugares diferentes, por meio de link, disponibilizado com antecedência.
3- A Intranet também é citada pelo autor como uma ferramenta usada no setor produtivo, visando a organização interna das empresas; usa dispositivos para correspondência, colaboração, compartilhamento de memória e de documentos compatíveis com a rede externa. A Intranet incrementa a comunicação interna, integra departamentos e promove transparência.
 
No percurso desta obra, o autor aborda as implicações culturais do desenvolvimento das tecnologias digitais de informação e comunicação, estando cheia de ótimas oportunidades para pensarmos sobre pessoas e distâncias presentes nesta sociedade em rede.

Leideana Bacurau




Atuar na educação a distância nos faz pensar sobre pessoas e distâncias neste mundo contemporâneo. Faz-nos entender que há muita relatividade intrínseca a tais conceitos, neste tempo de  novas tecnologias de informação e comunicação - TICs.
Há algumas décadas, Richard Bach, deliciosa e poeticamente, disse em seu livro “Longe é um lugar que não existe, que estamos onde o nosso coração está, colocando tempo e distância como atemporais.
Hoje, com as TICs tão presentes, a sociedades em rede, passamos a entender que já não é figura metafórica, de fato longe é um lugar que não existe. Pessoas, pesquisas e nacionalidades se encontram, se falam e interagem sobre assuntos fúteis ou magnânimos em segundos.
Desejamos que este espaço proporcione a circulação de pensamentos, descobertas, estudos ou simples reflexões sobre pessoas e distâncias no novo mundo da web, da internet. Que possa atrair pessoas presentes na labuta da educação a distância e com as suas práxis contribuir.